Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

No Arquivo Histórico do RS, 4,6 mil fichas de “coleta e processamento de informações” retratam a preocupação com os que eram considerados inimigos do regime. 

Em janeiro de 1982, um grupo de professoras saiu de Cruz Alta numa caravana de ônibus e se dirigiu, esfuziante, até Goiás, onde educadores de todo o Brasil planejavam uma onda de greves por melhores salários.

Em agosto de 1971, um padre em Frederico Westphalen comentou com paroquianos que achava “um absurdo” os alunos do seminário terem de desfilar no 7 de Setembro, em plena ditadura militar (1964-1985).

Em abril de 1971, um político de Palmeira das Missões, simpático ao regime, era visto em conversas diárias com uma conhecida militante comunista da cidade.

 Nenhum deles sabia, mas eram todos vigiados. Seguidos por informantes da ditadura. Monitorados por meio de relatórios de agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), a temida repartição da Polícia Civil encarregada de controlar a oposição ao regime.

 Hoje é possível saber disso porque grande parte das fichas com dados de cidadãos “sob suspeita” está guardada no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Não todas, porque milhares foram incineradas há 30 anos, quando a ditadura agonizava. Nos três casos acima, os personagens ignoravam que estavam sob vigilância. Ficaram sabendo por meio de ZH, que encontrou informações a respeito deles em meio a 4,6 mil fichas armazenadas no arquivo.

 Em site, veja especial multimídia e faça pesquisas nas fichas do Dops

 Até pelo maior contato com a população, eram policiais os encarregados pelos militares de perseguir os aliados do presidente João Goulart, deposto em 31 de março de 1964, e opositores ao regime. Dentro da Polícia Civil a vigilância estava a cargo do Dops, criado em 1924, nutrido durante a ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945) e que, no regime militar, teria a palavra final sobre a vida de milhões de brasileiros.

 — O sistema de coleta de informação, interrogatório, sequestro, prisões, funcionava na conjunção entre forças militares e a polícia. No Estado, o Dops foi preponderante, em trabalho conjunto com o III Exército – diz a historiadora da UFRGS Carla Rodeghero.

 O monitoramento acontecia já antes do golpe, e os primeiros a sofrerem as consequências da vigilância foram 102 políticos que tiveram seus direitos cassados por 10 anos, já em 9 de abril de 1964, no Ato Institucional Número 1 (AI-1). A lista era encabeçada por Jango, Leonel Brizola, Miguel Arraes (os líderes mais expressivos do PTB) e pelo comunista Luiz Carlos Prestes.

 A espionagem resultou em mais de 50 mil pessoas atingidas pela ditadura (com exílio, prisões, demissões, tortura ou morte), que perduraria por 21 anos, terminando em 1985. O Dops não rastreava só políticos notórios, mas também cidadãos que não tinham atividade partidária e sequer imaginavam estar sob vigilância.

 — O regime tinha muitos inimigos e tudo era monitorado. Exigiam-se atestados de bons antecedentes ideológicos para funcionários públicos, mesmo que não fizessem manifestações políticas — diz o historiador Márcio Tavares dos Santos, diretor do Arquivo Histórico do RS.

As fichas ali armazenadas foram descobertas em 1992 no Palácio da Polícia, em Porto Alegre. ZH examinou todas as 4,6 mil fichas de “coleta e processamento de informações” do Dops disponíveis. São cartolinas com dados básicos a respeito de cidadãos a serem vigiados, poucas delas com foto. A maior parte da triagem e catalogação dos fichários foi feita pelas historiadoras Rejane Penna e Ananda Simões Fernandes. Chama a atenção que até mesmo adeptos do regime eram monitorados.

— Era uma maneira de assegurar que ficassem fiéis ao regime. E também de afastá-los nas disputas internas por cargos no governo — acrescenta o historiador Santos.

O material agora disponibilizado no site de ZH está no Arquivo Histórico do RS e, em formato digital, no site do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro.

Santos tem um projeto ambicioso: transformar o Arquivo Histórico em Memorial da Democracia e Direitos Humanos, com 12 milhões de documentos. O acervo incluiria papéis secretos da Operação Condor, a união de ações militares repressivas nos países do Cone Sul. O projeto conta com R$ 1,5 milhão captado junto à Secretaria Nacional dos Direitos Humanos.

Conheça a história de alguns dos personagens que chamaram a atenção do Dops no Rio Grande do Sul. Nessa reportagem, eles estão divididos em três categorias: políticos e militantes, cidadãos comuns que não imaginavam terem sido fichados e simpatizantes do regime que se tornaram alvo de fogo amigo.

Fonte: Zero Hora